Vasos de Barro.
 
11/12/2009
 

Por Pe. Vitor Galdino Feller


Em 19 de junho de 2009 teve início o Ano Sacerdotal, convocado por Bento XVI para comemorar o 150º. ano da morte de São João Maria Vianney. O tema do ano é: “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”. Pergunta-se: podem os padres ser tão fiéis como Jesus, na missão de anunciar o Reino de Deus e revelar a todos o rosto amoroso do Pai? Nos Evangelhos é frequente o advérbio comparativo “como” nos convites feitos aos discípulos de Jesus: “amai-vos como eu vos amei”, “sede perfeitos, misericordiosos, como o Pai do céu”. A medida do amor e da santidade do cristão é o próprio Deus. Uma medida infinita.
Não há limites para o amor. Não há um teto para a santidade. É possível, sim, que os padres sejam fiéis como o Cristo. Deus não exige o impossível. O que pede é a fidelidade até o fim. É conhecida a frase: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”. Na abertura aos apelos de Deus, manifestados nos sinais dos tempos e nas exigências do próximo, os padres podem, sim, tornar-se santos, perfeitos, misericordiosos. Serve de exemplo São Vianney, o Cura d’Ars, que transformou sua cidadezinha, de um povo de impenitentes e ímpios em uma comunidade de santos.
Os padres vêm das mesmas famílias e comunidades de onde vêm os médicos, professores, garagistas, operários. Não há uma mina de ouro de onde se tiram os padres, burilados, perfeitos. O breve período do seminário – entre sete e 10 anos – não consegue transformá-los em santos. São feitos da matéria do mundo. Pela diversidade social de sua proveniência e pela multiplicidade de contatos que mantêm, nas alegrias e tristezas, em batizados e sepultamentos, se poderia dizer que são o sismógrafo da sociedade. Neles se mede o grau de virtude e de pecado da sociedade. Padecem dos mesmos limites, provações, dificuldades, doenças de sua geração. Deixam transparecer em si a riqueza moral e espiritual de seu povo. São vasos de barro, expressão que São Paulo, o apóstolo das nações, usou pra si. A beleza deles não está neles, mas no tesouro que carregam.
O cristianismo é a religião de um Deus que veio ao nosso encontro, fazendo-se humano e servindo-se de seres humanos como continuadores de seu projeto. Ele quer que suas bênçãos nos sejam dadas por meio de pessoas humanas. Assim, Deus se serve da fragilidade dos padres, para continuar a executar, no meio da humanidade, seu plano de salvação. Deus não usa medidor de santidade para escolher os padres. Na história do cristianismo, não só da Igreja Católica, houve muitos mediadores da graça divina, que foram pecadores. Mesmo assim, o Evangelho foi anunciado, o Pão da vida foi entregue a muitos, a vida foi defendida.
Infelizmente, hoje os padres são notícia pelos pecados de um ou outro. O mal faz notícia, o bem não! O que é comum não cai no noticiário! Não é notícia o cotidiano da fidelidade de inúmeros padres que dão a vida pelo seu povo, que coordenam atividades pastorais e sociais, que fazem história em suas pequenas e grandes cidades, que formam a consciência sadia de famílias e jovens, que congregam semanalmente o povo para o culto a Deus. Mas é aí que se vai gerando a fidelidade e a santidade de muitos padres.
Pe. Vitor Galdino Feller
Diretor e professor de teologia no ITESC - Instituto Teológico de Santa Catarina.

Fonte:Ano Sacerdotal