Primeira
pregação de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa
CIDADE
DO VATICANO, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).-
Apresentamos a seguir a primeira pregação
de Quaresma à Cúria Romana, realizada nesta
sexta-feira, em presença do Papa, pelo padre Raniero
Cantalamessa, OFMCap.
*
* *
MINISTROS
DE UMA NOVA ALIANÇA
O
Senhor me concede ser testemunha da graça extraordinária
que se revela pela Igreja neste ano sacerdotal. São
incontáveis os retiros do clero que se realizam em
várias partes do mundo, todos animados por um espírito
novo e pela redescoberta da própria vocação.
Um destes retiros, organizado em Manila pela Conferência
Episcopal das Filipinas em janeiro passado, contou com a
participação de 5.500 sacerdotes e 90 bispos.
Foi, pelas palavras do cardeal de Manila, um novo Pentecostes.
Durante um hora de adoração guiada, por convite
do pregador, toda aquela imensa multidão de sacerdotes
em vestes brancas gritou a uma só voz: “Lord
Jesus, we are happy to be your priests”: “Senhor
Jesus, estamos felizes por ser seus sacerdotes!”.
E se via pelas expressões nos rostos que não
eram apenas palavras.
Vivi
a mesma experiência, embora com números muito
reduzidos, com todo o clero da região de Sabah, na
Malásia, em seguida em Cingapura e finalmente no
Santuário de Loreto, com cerca de 200 bispos e sacerdotes
italianos. Todos me pediram que transmitisse ao Santo Padre
seu agradecimento e sua saudação, o que faço
com alegria neste momento.
1.
Os “mistérios” de Deus
A
palavra de Deus que nos guia nestas reflexões para
o Ano Sacerdotal é Coríntios 4, 1: “Si
nos existimet homo, ut ministros Christi et dispensatores
mysteriorum Dei”; “Que as pessoas nos considerem
como ministros de Cristo e administradores dos mistérios
de Deus”. Meditamos no Advento sobre a primeira parte
desta afirmação: o sacerdote como servidor
de Cristo, no poder e na unção do Espírito
Santo. Resta-nos, nesta Quaresma, refletir a respeito da
segunda parte: o sacerdote como dispensador dos mistérios
de Deus. Naturalmente, o que dizemos do sacerdote é
ainda mais válido para o bispo, que possui a plenitude
do sacerdócio.
O
termo “mistérios” tem dois significados
fundamentais: o primeiro é de verdades ocultas e
reveladas por Deus, os divinos propósitos anunciados
veladamente no Antigo Testamento e revelados aos homens
na plenitude dos tempos; o segundo é aquele de “sinais
concretos da graça”, na prática, os
sacramentos. A Carta aos Hebreus reúne estes dois
significados na expressão: “os mistérios
de Deus” (ta pros ton Theon, ea que sunt ad Deum);
acentua o real significado ritual e sacramental, dizendo
que a tarefa do sacerdote (o autor se refere aqui ao sacerdócio
em geral, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento) é
o de “oferecer dons e sacrifícos pelos pecados”
(Hb 5,1).
Este
segundo significado se afirma principalmente na tradição
da Igreja. Santo Ambrósio escreve dois tratados sobre
os ritos de iniciação cristã, vistos
como o cumprimento de imagens e profecias do Antigo Testamento;
um ele intitula de “De sacramentis” e o outro
de “De mysteriis”, ainda que ambos tratem do
mesmo argumento. Sabe-se, de resto, que o termo sacramentum
não é mais que a tradução latina
do termo mysterion.
Retornando
à palavra do Apóstolo, o primeiro destes dois
significados evidencia o papel do sacerdote a respeito da
palavra de Deus, e o segundo, seu papel a respeito dos sacramentos.
Juntos, delineiam a fisionomia do sacerdote como testemunha
da verdade de Deus e como ministro da graça de Cristo,
como anunciador e como sacrificador.
Por
muitos séculos, a função do sacerdote
esteve reduzida quase exclusivamente ao seu papel de liturgo
e de sacrificador: “oferecer sacrifícos e perdoar
os pecados”. Foi com o Concílio Vaticano II
que se evidenciou, para além da função
cultual, a função de evangelizador. Em linha
com o que a Lumen gentium já havia afirmado sobre
a função dos bispos de “ensinar”
e “santificar”, a Presbyterorum ordinis escreve:
“Participando,
a seu modo, do múnus dos apóstolos, os presbíteros
recebem de Deus a graça de serem ministros de Jesus
Cristo no meio dos povos, desempenhando o sagrado ministério
do Evangelho, para que seja aceita a oblação
dos mesmos povos, santificada no Espírito Santo (Rm
15, 16). Com efeito, o Povo de Deus é convocado e
reunido pela virtude da mensagem apostólica […].
Com efeito, o seu ministério, que começa pela
pregação evangélica, tira do sacrifício
de Cristo a sua força e a sua virtude” [1].
Das
três meditações de Quaresma, dedicaremos
uma ao tema do sacerdote como ministro da Palavra de Deus,
uma ao do sacerdote como ministro dos sacramentos, e uma
mais existencial, à renovação do sacerdócio
mediante a conversão ao Senhor.
2.
A letra e o Espírito
A
partir do século II nota-se uma tendência muito
clara de moldar – nos requisitos, nos ritos, nos títulos,
nas vestes – o sacerdócio cristão conforme
o levítico do Antigo Testamento [2]; uma tendência
que se cristalizará em documentos canônicos
como as Costituzioni apostoliche, a Didascalia siriaca e
outras fontes similares. É justamente tal assimilação
externa que desperta, em ocasiões como esta, uma
necessidade urgente de redescobrir a novidade e a alteridade
substancial do ministério da nova aliança
em relação à antiga. É a enérgica
afirmação paulina que gostaria colocar no
centro da presente meditação:
“Por
nós mesmos, não somos capazes de pôr
a nosso crédito qualquer coisa como vinda de nós;
a nossa capacidade vem de Deus, que nos tornou capazes de
exercer o ministério da aliança nova, não
da letra, mas do Espírito. A letra mata, o Espírito
é que dá a vida. Se o ministério da
morte, gravado em pedras com letras, foi cercado de tanta
glória que os israelitas não podiam fitar
o rosto de Moisés, por causa do seu fulgor, ainda
que passageiro, quanto mais glorioso não será
o ministério do Espírito?” (2 Cor 3,
5-8).
O
que o Apóstolo pretende ao opor a letra ao Espírito
pode ser deduzido a partir do que escreve um pouco acima,
ao falar da comunidade do Novo Testamento: “Todo o
mundo sabe que sois uma carta de Cristo, redigida por nosso
intermédio, escrita não com tinta, mas com
o Espírito de Deus vivo, gravada não em tábuas
de pedra, mas em tábuas que são corações
humanos” (2 Cor 3, 3).
A
letra é, portanto, a lei mosaica escrita sobre tábuas
de pedra e, por extensão, toda lei positiva exterior
ao homem; o Espírito é a lei interior, escrita
sobre os corações, aquela que o Apóstolo
define em outra passagem como “a lei do Espírito,
que dá a vida no Cristo Jesus, te libertou da lei
do pecado e da morte (cf. Rm 8, 2).
Santo
Agostinho escreveu um tratado sobre nosso texto –
o De Spiritu et littera – que é um marco na
história do pensamento cristão. A novidade
da nova aliança em relação à
antiga, explica ele, reside no fato de que Deus não
se limita mais a ordenar ao homem como deve ou não
deve se portar, mas realiza ele mesmo com o homem e no homem
aquilo que determina. “Onde a lei das obras impera
com a ameaça, a lei da fé impetra com o crer…
Com a lei das obras Deus diz aos homens: “Faça
o que te ordeno”; com a lei da fé o homem diz
a Deus: “dai-me o que me ordena” [3]
A
lei nova que é o Espírito é muito mais
que uma mera “indicação” de uma
vontade; é uma “ação”,
um princípio vivo e ativo. A lei nova é a
vida nova. A oposição letra/Espírito
equivale, em são Paulo, à oposição
lei/graça: “não estais sob a Lei, mas
sob a graça” (Rom 6,14).
Também
na Antiga Aliança está presente a ideia de
graça, no sentido de benevolência, favor e
perdão de Deus (a hesed): “favoreço
a quem quero favorecer” (Ex 33, 19); os salmos estão
repletos de referências a este conceito. Mas agora
a palavra graça, charis, adquiriu um significado
novo, histórico: é a graça que provém
da morte e ressurreição de Cristo e que justifica
o pecador. Não mais apenas uma disposição
benevolente, mas uma realidade, um “estado”:
“Assim, pois, justificados pela fé, estamos
em paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Por ele,
não só tivemos acesso, pela fé, a esta
graça na qual estamos firmes…” (Rm 5,
1-2).
João
descreve a relação entre a antiga e a nova
aliança do mesmo modo que Paulo: “a Lei foi
dada por meio de Moisés, a graça e a verdade
vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1, 17).
Disso
se deduz que a lei nova, ou do Espírito, não
é, no sentido estrito, aquela proferida por Jesus
no monte das bem-aventuranças, mas sim aquela infundida
por ele nos corações em Pentecostes. Os preceitos
evangélicos são certamente mais elevados e
perfeitos que aqueles da lei mosaica; todavia, por si sós,
também estes permaneceriam ineficazes. Se bastasse
ter proclamado a nova vontade de Deus através do
Evangelho, não seria possível explicar a necessidade
de que Jesus tivesse morrido e que viesse o Espírito
Santo; não se explica por que o Jesus de João
faz com que tudo dependa de sua “elevação”,
isto é, de sua morte na cruz (cf. Jo 7, 39; 16, 7-15).
Os
apóstolos são a prova viva disso. Estes haviam
escutado da viva voz de Jesus todos os preceitos evangélicos,
por exemplo que “aquele que quiser ser o primeiro
deve fazer de si o último e servo de todos”,
mas até o final os vemos preocupados em estabelecer
quem seria o maior dentre eles. Somente após a vinda
do Espírito é que podemos vê-los completamente
esquecidos de si mesmos e comprometidos unicamente em proclamar
“as grandes obras de Deus” (cf. At 2, 11).
Assim,
sem a graça interior do Espírito, também
o Evangelho, o mandamento novo, teria permanecido lei velha,
letra. Retomando um pensamento audacioso de Santo Agostinho,
São Tomás de Aquino escreve: “pela letra
entende-se qualquer lei escrita que permaneça externa
ao homem, incluindo os preceitos morais contidos no Evangelho;
de modo que também a letra do Evangelho mataria,
se não se acrescentasse, por dentro, a graça
da fé que cura”. Ainda mais explícito
é o que está escrito um pouco antes: “A
lei nova é principalmente a própria graça
do Espírito Santo que é concedida aos que
creem” [5].
3.
Não por constrição, mas por atração
Mas
como age, concretamente, esta lei nova que é o Espírito?
Age através do amor! A lei nova nada mais é
do que aquilo a que Cristo chamou de “um mandamento
novo”. O Espírito Santo escreveu a nova lei
em nossos corações, infundindo nestes o amor
(Rm 5, 5). Este amor é o amor com o qual Deus nos
ama e com o qual, contemporaneamente, faz com que nós
o amemos e nos amemos uns aos outros. É uma capacidade
nova de amar.
Não
seria um contra-senso nos referirmos ao amor como uma “lei”?
A esta pergunta deve-se responder que existem dois modos
pelos quais o homem pode ser induzido a fazer ou não
fazer algo: ou por constrição ou por atração.
A lei exterior atua pelo primeiro modo, por constrição,
com a ameaça de castigo; o amor atua do segundo modo,
pela atração. De fato, cada um de nós
é atraído por aquilo que ama, sem que se submeta
a qualquer constrição exterior. O amor é
como um “peso” da alma que a lança em
direção ao objeto do próprio deleite,
no qual sabe encontrar seu repouso [6]. A vida cristã
é vivida por atração, não por
constrição.
O
amor, portanto, é uma lei, “a lei do Espírito”,
no sentido de que cria no cristão um dinamismo que
o leva a realizar tudo o que Deus deseja, espontaneamente,
porque fez de sua a vontade de Deus e ama tudo o que Deus
ama.
Qual
o lugar, nos perguntamos, nesta economia do Espírito,
da observação dos mandamentos? Também
após a vinda de Cristo subsiste ainda a lei escrita:
há os mandamentos de Deus, o decálogo, há
os preceitos evangélicos; a estes foram acrescentados,
em seguida, as leis eclesiásticas. Qual o significado
do Código de Direito Canônico, dos regulamentos
monásticos, dos votos religiosos e tudo o mais que,
em suma, indica uma vontade objetivada que me é imposta
do externo? Seriam tais coisas como que corpos estranhos
ao organismo cristão?
Houve,
no curso da história da Igreja, alguns movimentos
que pensaram desse modo e que refutaram, em nome da liberdade
do Espírito, qualquer lei, a ponto de serem chamados
de movimentos “anomistas”, mas estes foram sempre
rejeitados pela autoridade da Igreja e pela própria
consciência cristã.
A
resposta cristã a esse tipo de problema nos é
dada pelo Evangelho. Jesus afirma não ter vindo para
“abolir a lei”, mas “para dar-lhe cumprimento”
(cf Mt 5, 17). E qual é o “cumprimento”
da lei? “O pleno cumprimento da lei” –
responde o Apóstolo – “é o amor!”
(Rm 13, 10). Do mandamento do amor – diz Jesus –
“dependem toda a lei e os profetas” (cf Mt 22,
40).
A
obediência se torna, assim, a prova de que se vive
sob a graça. “Se me amais, observareis os meus
mandamentos” (Jo 14, 15). O amor, desse modo, não
substitui a lei, mas a observa, “cumpre-a”.
Na profecia de Ezequiel, atribuía-se precisamente
ao dom futuro do Espírito do novo coração
a possibilidade de observar a lei de Deus: “Porei
em vós o meu espírito e farei com que andeis
segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos”
(Ez 36, 27). “A lei foi dada” – escreve
Agostinho – “para que se buscasse a graça
e a graça foi dada para que se observasse a lei”.
4.
Atualidade da mensagem da graça
Concluímos
assim a análise das consequências que a mensagem
paulina referente à nova aliança pode ter
sobre o modo de conceber e viver a vida cristã. Nesta
ocasião, gostaria de destacar como este tema pode
esclarecer a questão da evangelização
do mundo atual e do diálogo inter-religioso, e, consequentemente,
o papel do sacerdote como ministro da verdade de Deus.
Agostinho
escreveu seu tratado La lettera e lo Spirito para combater
a tese pelagiana, segundo a qual para salvar-se é
suficiente que Deus nos tenha criado, dotado de livre-arbítrio
e nos dado uma lei que indique sua vontade. Na prática,
esta é a tese de que o homem pode se salvar por si
mesmo e que a vinda de Cristo é, certamente, uma
ajuda extraordinária, mas não indispensável
para a salvação.
Pode-se
discutir – e hoje se discute entre os estudiosos –
se o santo teria interpretado corretamente o pensamento
do monge Pelágio. Mas isso não deveria nos
surpreender. Os Padres que combateram heresias explicitaram
(de seu ponto de vista!) quais eram as implicações
lógicas de uma certa doutrina, sem levar em consideração
o ponto de vista ou a linguagem do adversário. Estavam
mais preocupados com a doutrina do que com as pessoas, com
a verdade dogmática do que com a verdade histórica.
Agostinho, aliás, mostra-se mais respeitoso e cortês
no trato com Pelágio do que, por exemplo, Cirilo
de Alexandria em seus confrontos com Nestório.
A
reavaliação moderna de autores como Pelágio
e Nestório não significa de forma alguma uma
reavaliação do pelagianismo ou do nestorianismo.
Essa distinção contribuiu, em tempos recentes,
para o restabelecimento da comunhão com as igrejas
assim chamadas nestorianas ou monofisistas do oriente.
Tudo
isso, no entanto, nos interessa relativamente. O que é
importante ter em mente é que Agostinho tem razão
a respeito do problema principal: para salvar-se, não
basta a natureza, o livre arbítrio ou o direcionamento
da lei: é necessária a graça, isto
é, é necessário Cristo. Pensar diferente
disso significaria torna supérflua sua vinda, e com
ela também sua morte e ressurreição;
significaria considerar Cristo um exemplo de vida, mas não
“causa de salvação eterna para todos
os que nele creem” (Hb 5, 9).
É
sobre este ponto que o pensamento de Agostinho – e
ainda antes dele o de Paulo – revela-se de uma extraordinária
atualidade. Aquilo que, segundo a Apóstolo, distingue
a nova da antiga aliança, o Espírito da letra,
a graça da lei, feitas as devidas distinções,
é exatamente o que distingue hoje o cristianismo
de outra religião.
As
formas se alteraram, mas a substância é a mesma.
“Obra da lei”, ou obra do homem, é qualquer
prática humana, quando a essa se condiciona a própria
salvação, seja esta concebida como comunhão
com Deus, seja como comunhão consigo mesmo e com
as energias do universo. O pressuposto é o mesmo:
Deus não se doa, é conquistado!
Podemos
ilustrar a diferença da seguinte maneira. Cada religião
humana ou filosofia religiosa começa dizendo ao homem
como proceder para ser salvo: os deveres, as obras –
sejam obras exteriores ou caminhos especulativos em direção
ao próprio interior – o Tudo ou o Nada. O cristianismo,
por sua vez, não começa dizendo ao homem como
proceder, mas comunicando o que Deus fez por nós.
Jesus não começou a pregar dizendo “Convertam-se
e creiam no Evangelho para que o Reino venha até
vós”; ao contrário, começou dizendo:
“O Reino de Deus está entre vós: convertei-vos
e crede no Evangelho”. Não primeiro a conversão
e depois a salvação, mas primeiro a salvação
e depois a conversão.
Também
no cristianismo – como já recordamos –
existem os deveres e os mandamentos, mas o plano dos mandamentos,
incluído o maior de todos, que é o de amar
a Deus e ao próximo, não é o primeiro
plano, mas o segundo; o primeiro plano é o do dom,
o da graça. “Nós nos amamos porque ele
nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). É do dom que
decorre o dever, e não vice-versa.
Nós,
cristãos, não entraremos em diálogo
com outras confissões afirmando a diferença
ou a superioridade de nossa religião; tal postura
representaria a própria negação do
diálogo. Insistiremos, alternativamente, nos aspectos
que nos unem, nos objetivos comuns, reconhecendo para os
outros o mesmo direito (ao menos subjetivo) de considerar
sua própria fé como a mais perfeita e a definitiva.
Sem esquecer, de resto, que aquele que vive com coerência
e boa fé uma religião das obras e da lei é
melhor e agrada mais a Deus do que alguém que pertença
à religião da graça, mas se priva completamente
seja de crer na graça, seja de cumprir as obras da
fé.
Tudo
isso não deve, entretanto, nos induzir a “colocar
entre parênteses” nossa fé na novidade
e na unicidade de Cristo. Não se trata tampouco de
afirmar a superioridade de uma religião sobre as
demais, mas de reconhecer a especificidade de cada uma,
de saber quem somos e no que cremos.
Não
é difícil explicar o porquê da dificuldade
em admitir a ideia de graça e de sua recusa instintiva
por parte do homem moderno. Salvar-se “pela graça”
implica em reconhecer a dependência de cada um e isso
se mostra muito difícil. É bem conhecida a
afirmação de Marx: “um ser não
se considera independente a menos que seja seu próprio
senhor, e ele só o é quando deve sua existência
a si próprio. Um homem que vive graças ao
favor de outrem deve ser considerado um ser dependente [...].
Mas eu viveria completamente pela graça de um outro,
se este houvesse criado minha vida, se este fosse a fonte
de minha vida e esta não fosse minha própria
criação” [8]. O motivo pelo qual se
refuta um Deus criador é o mesmo pelo qual se refuta
um Deus salvador.
Esta
é a explicação dada por São
Bernardo para o pecado de Satanás: este preferiu
ser a mais infeliz das criaturas por mérito próprio,
ao invés de ser a mais feliz pela graça de
outro; preferiu ser “infeliz mas soberano”,
ao invés de ser feliz mas dependente: misere praeesse,
quam feliciter subesse [9].
A
rejeição do cristianismo em certos níveis
de nossa cultura ocidental, quando não é rejeição
à Igreja e aos cristãos, é rejeição
à própria graça.
5.
“Nós pregamos Cristo Jesus Senhor nosso”
Qual
é, neste tempo, a tarefa dos sacerdotes enquanto
administradores dos mistérios de Deus e mestres da
fé? O de ajudar os irmãos a viver a novidade
da graça, que é como dizer a novidade de Cristo.
Jesus
no Evangelho utiliza a expressão “os mistérios
do Reino dos céus” para indicar todo seu ensinamento
e, em particular, o que se refere a sua pessoa (cf. Mt 13,
11). Após a Páscoa se passa cada vez mais
frequentemente do plural ao singular, dos mistérios
ao mistério: todos os mistérios de Deus se
resumem já no mistério que é Cristo.
São
Paulo fala do “mistério de Deus, quer dizer,
Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros
da sabedoria e do conhecimento” (Col 2, 2-3). Convida-nos
a pensar em Cristo como em um palácio, em que, conforme
alguém adentra, vai de maravilha em maravilha. O
universo material, com todas as suas belezas e sua incalculável
extensão, é a única imagem adequada
do universo espiritual que é Cristo. Não por
nada este se fez “por meio dele e para ele”
(Col 1,16).
O
apóstolo assinalou com mais clareza que ninguém
o centro e o coração do anúncio cristão
e o expressou de forma programática, a modo de manifesto:
“Nós pregamos a Cristo crucificado” (1
Cor 1, 23) e “nós não pregamos a nós
mesmos, mas a Cristo Jesus Senhor nosso” (2 Cor 4,5).
Estas palavras justificam plenamente a afirmação
segundo a qual o cristianismo não é uma doutrina,
mas uma pessoa.
Mas
o que significa, na prática, pregar a “Cristo
crucificado” ou “Cristo Jesus, Senhor nosso”?
Não significa falar sempre e só do Cristo
do kerygma ou do Cristo do dogma, quer dizer, transformar
as pregações em lições de cristologia.
Significa “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10),
fundar todo dever nele, fazer servir cada coisa ao objetivo
de levar os homens ao sublime conhecimento de Cristo Jesus
Senhor nosso” (Fil 3, 8).
Jesus
deve ser o objeto formal, não necessariamente e sempre
o objeto material, da pregação, o que a “informa”,
o que lhe dá fundamento e dá autoridade a
qualquer outro anúncio, a alma e a luz do anúncio
cristão. “Árido é todo alimento
da alma – exclama São Bernardo – se não
está regado com este sal. O que escreves não
tem sabor – non sapit mihi – se não palpita
dentro o coração de Jesus” [10].
Na
liturgia das horas em língua alemã, o Stundengebet,
há um hino (Laudes de terça-feira da segunda
semana) que me ficou querido desde o primeiro momento em
que o recitei. Começa assim: Göttliches Wort,
der Gottheit Schrein, für uns in dein Geheimnis ein.
“Verbo eterno, Deus vivo e verdadeiro, faz-nos penetrar
em teu mistério”. A expressão “o
mistério de Cristo” é a mais compreensiva
de todas: recolhe em seu ser e no seu atuar sua humanidade
e sua divindade, sua preexistência e sua encarnação,
as profecias do Antigo Testamento e sua realização
na plenitude dos tempos. Podemos repeti-lo com uma jaculatória:
“Verbo eterno, Deus vivo e verdadeiro, faz-nos penetrar
em teu mistério”
[Tradução
de Paulo Marcelo Silva]
*
* *
[Notas
originais em italiano]
1)
PO, 2.
2)
Cf. J.-M. Tillard, “Sacerdoce”, in DSpir. 14,
col.12.
3)
Agostino, De Spiritu et littera, 13,22.
4)
Tommaso d’Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q. 106,
a. 2.
5)
Ibid., q. 106, a. 1; cf. Agostino, De Spiritu et littera,
21, 36.
6)
Agostino, Commento al Vangelo di Giovanni, 26, 4-5: CCL
36, 261; Confessioni, XIII, 9.
7)
Agostino, De Spir. et litt. ,19,34.
8)
C. Marx, Manoscritti del 1844, in Gesamtausgabe, III, Berlino
1932, p. 124 e Critica della filosofia del diritto di Hegel,
in Gesamtausgabe, I, 1, Francoforte sul M. 1927, p. 614
s.
9)
Bernardo di Chiaravalle, De gradibus humilitatis, X, 36:
PL 182, 962.
10)
Bernardo di Chiaravalle, Sermones super Canticum, XV, 6:
Ed. Cistercense, Roma 1957, p.86.
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Fonte:
presbiteros.com.br
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