ENTREVISTA SOBRE
O INÍCIO DA VIDA
Para esclarecer algumas questões fundamentais sobre
o início da vida humana entrevistamos o coordenador
da Pós-graduação em Bioética
da PUC-Rio, Prof. André Marcelo M. Soares, que
é filósofo e doutor em Teologia com pós-doutorado
em Bioética. Além disso, é membro
do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Instituto
Nacional de Câncer (INCA), membro da Comissão
de Bioética da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB) e membro da Equipe de Apoio da Seção
Vida do Consejo Episcopal Latinoamericano (CELAM).
1. Por que a vida humana deve ser respeitada sempre?
R.:
Ao falar de vida humana, não estamos apontando
simplesmente para a constituição de sua
identidade genética, distinta de qualquer outro
ser. O que torna a vida humana diferente da vida dos demais
seres vivos é o fato dela poder ser definida não
só por sua dimensão biológica, mas
também por sua dimensão espiritual. Essa
dimensão se concretiza naquilo que chamamos de
pessoa, que tem um sentido que ultrapassa todas as esferas
fisiológicas. Por pessoa humana entendemos a vida
desde sua origem. Pois, desde a concepção,
a vida humana possui todas as potencialidades para se
desenvolver no ser humano que estamos acostumados a ver
em nós e nos outros que convivem conosco no dia
a dia. Aquele ser que acabou de ser gerado não
é uma vida em potencial, mas uma vida humana com
potencialidades, tanto fisiológicas quanto espirituais.
É verdade que somos seres biológicos, mas
não seríamos humanos se não possuíssemos
uma dimensão reflexiva, social, cultural, política
e espiritual. Afinal, a vida humana não pode ser
reduzida a um conjunto de células, pois o que somos
hoje se deve ao que ocorreu no dia em que fomos concebidos.
2.
O que é um embrião humano?
R.:
Trata-se do indivíduo que se forma após
a concepção, ou seja, no momento da fusão
entre as células reprodutivas masculina (espermatozóide)
e feminina (óvulo). O embrião passa por
alguns estágios de desenvolvimento. O primeiro
deles chamamos de zigoto, célula que se forma depois
da fusão entre o espermatozóide e o óvulo.
A seguir, inicia-se uma lenta viagem da Trompa de Falloppio
para o útero. Neste momento, começa a ocorrer
no zigoto uma divisão celular, fazendo surgir,
depois das 30 horas da fecundação, dois
blastômeros (duas células). Entre 40 e 50
horas, já são quatro blastômeros e
por volta das 60 horas já são oito. Durante
a viagem até o útero, o ovo (célula
resultante da fusão entre espermatozóide
e óvulo) passa de 12 para 32 células, estágio
chamado de mórula (massa esférica cheia
de células parecida com uma amora) e no quinto
dia, agora no estágio de blastocisto, se fixa na
parede do útero (processo conhecido por nidação),
onde passa a se desenvolver até o nascimento.
3.
O que é um feto humano?
R.:
É o último estágio de desenvolvimento
embrionário e é alcançado na oitava
semana de gestação até a ocasião
do nascimento.
4.
O embrião ou feto humano pode ser sacrificado para
beneficiar um outro ser humano?
R.:
Não. Pois não há como afirmar, de
modo absoluto, que “há mais vida humana”
em um adulto ou em todo aquele já nascido, do que
em um embrião ou feto. A dignidade que a vida humana
possui em seu estágio adulto é a mesma em
seu período de vida intra-uterina. Sendo assim,
uma vida não pode ser utilizada como um mero instrumento
de reposição para beneficiar outra. Destruir
a vida de um embrião ou feto é destruir
a vida de um semelhante. Não podemos afirmar que
o embrião ou o feto não é um de nós.
É preciso não confundir o valor da vida
com o valor que cada um dá a sua própria
vida. Embora muitos não valorizem a vida humana,
o fato é que seu valor independe do modo de vida
que cada indivíduo escolheu para si.
5.
Fala-se em “interromper a gravidez”. É
o mesmo que aborto?
R.:
A palavra aborto vem do latim (aborior) e significa morrer
antes do nascimento. O aborto pode ser espontâneo
ou provocado. No primeiro caso não é desejada
pela mãe a interrupção da gravidez.
Este tipo de aborto pode ser causado por uma série
de distúrbios próprios do organismo da mãe
ou do desenvolvimento do embrião. Já no
segundo caso, o do aborto provocado, ocorre quando há
um desejo da mãe de não levar adiante a
gravidez. Neste caso, ela recorre a alguma técnica
cirúrgica (aspiração, embriotomia
etc) ou farmacológica (pílula do dia seguinte,
pílula RU486 etc) para interromper a evolução
embrionária. Desta forma, podemos dizer que a interrupção
da gravidez sempre decorre de um aborto, espontâneo
ou não.
6.
Que são células-tronco? Para que servem?
R.:
Células-tronco são células indiferenciadas,
ou seja, aquelas que por estarem presentes no embrião
desde a sua primeiríssima fase, até seu
estágio de mórula, ainda não receberam
uma função específica para ser desempenhada
no organismo. Estas células são como um
“tronco”, do qual vão sendo originadas
todas as células especializadas (hemácias,
leucócitos, neurônios etc) e, portanto, diferenciadas.
Neste sentido, toda linhagem celular e tecidos são
originados pelas células-tronco. Elas são
as responsáveis pelo desenvolvimento de todo o
organismo. Atualmente, alguns cientistas desejam utilizar
as células-tronco para salvar vidas. O problema
moral está no fato de que para isto ocorrer será
necessário interromper a gravidez e eliminar o
embrião.
7.
Distinguem-se células-tronco embrionárias
das células-tronco adultas. Em que consiste a diferença?
R.:
As células-tronco embrionárias (aquelas
que se encontram no organismo desde a primeira fase do
desenvolvimento do embrião) são consideradas
totipotentes, porque juntas ou separadas têm um
potencial para produzirem todo o desenvolvimento do organismo.
Todavia, nas fases que sucederão a formação
da mórula, as células vão se diferenciando
e passam a ter potencialidades bem distintas, assumindo
funções especializadas no organismo. Deste
modo, elas perdem sua condição de totipotência
e passam a ser pluripotentes. As células-tronco
pluripotentes são as responsáveis pela formação
dos tecidos presentes no organismo adulto, mas isoladas
jamais podem dar origem ao organismo todo, o que só
ocorre na qualidade de totipotência. O período
de pluripotência é limitado. Pois do oitavo
ao décimo quarto dia, vão se formando três
camadas celulares (endoderma, ectoderma e mesoderma).
Destas camadas são originados os tecidos, os órgãos
internos, os órgãos externos e as células
reprodutivas. Nesta fase, as células-tronco passam
a ser multipotentes, ou seja, sua função
dentro da formação do organismo já
está determinada. As chamadas células-tronco
adultas são multipotentes, podendo dar origem ao
tecido celular onde residem. Em algumas regiões
do organismo (medula óssea, placenta e sangue do
cordão umbilical, por exemplo) é possível
encontrar células-tronco especializadas com um
bom potencial de adaptabilidade. Com a aplicação
da técnica adequada, estas células podem
servir na regeneração de tecidos celulares
distintos. Este procedimento é eticamente aceitável,
porque nele não se faz necessário à
interrupção da gravidez e a morte do embrião.
8.
Em termos de utilidade para a biomedicina e o bem estar
das pessoas, há diferenças significativas
entre elas?
R.:
As células-tronco embrionárias, por serem
totipotentes, têm uma capacidade ilimitada de se
tornarem qualquer tecido. Por outro lado, elas podem apresentar
sérios problemas de compatibilidade. Já
as células-tronco adultas estão presentes
no organismo em pequena quantidade e nem sempre se proliferam
in vitro, porém não apresentam as complicações
decorrentes da rejeição, pelo fato de serem
retiradas de um indivíduo para serem utilizadas
nele próprio. Além disso, não há
diferenças significativas entre elas para o uso
terapêutico. A única diferença se
dá no território da ética.
9.
Por que se diz que é inaceitável a manipulação
das células-tronco embrionárias, enquanto
se aceita o uso das células-tronco adultas?
R.:
Todo o problema moral em torno do uso das células-tronco
embrionárias (totipotentes) está no fato
de que para sua obtenção é necessário
que se interrompa o desenvolvimento do embrião,
causando, assim, um aborto. Já as células-tronco
adultas podem ser retiradas do ser humano sem a necessidade
de destruir o embrião.
10.
Quais as conseqüências do uso de embriões
humanos para o futuro da humanidade?
R.:
É uma falácia acreditar que sem o uso de
embriões não será possível
avançar na descoberta da cura de doenças.
É preciso observar que conseguimos alcançar,
até este ponto da evolução científica
e tecnológica, a solução para diversos
males, sem nunca ter necessitado utilizar embriões.
Até hoje não se sabe, ao certo, o que decorre
da utilização de células-tronco embrionárias
num ser humano. Pesquisas realizadas em animais apresentaram,
após o tratamento com células-tronco embrionárias,
o aparecimento de tumores e a formação de
verdadeiras aberrações. O uso de embriões
pode trazer, contrariamente do que tem sido afirmado levianamente
na mídia, uma série de prejuízos
no campo da saúde e da moral. Os defensores do
uso de embriões partem sempre de premissas relativistas
e utilitaristas. A vida começa na fecundação.
Isso é evidente e não é relativo.
Interromper o desenvolvimento de um embrião é
interromper uma vida em formação. Isso é
evidente e não é relativo. Usar embriões
para fins aparentemente beneficentes é uma violação
da dignidade humana. Afinal ninguém, de bom senso,
mata um bebê para lhe tirar o fígado ou coração
como propósito de salvar outra vida. Quem possui
este bom senso sabe também que o bebê está
em desenvolvimento, tanto quanto um embrião e é
tão vivo quanto um embrião. Isso é
evidente e não é relativo.
11.
É ético congelar embriões?
R.:
Não. Poderíamos responder a esta pergunta
com uma outra: é ético congelar uma pessoa
de 20 anos de idade? A resposta desta pergunta já
nos orienta para uma compreensão do embrião
como vida humana, que deve seguir seu curso normal e ser
respeitada desde o seu início. O embrião
congelado representa, no universo do desejo de maternidade
ou paternidade, somente uma possibilidade. Quando este
desejo se realiza, o embrião que restou já
não tem mais valor, literalmente se tornou desnecessário.
É evidente que os desejos de maternidade e paternidade
devem ser respeitados, mas a vida é um valor bem
maior do que qualquer desejo, seja ele qual for.
12.
Qual é o resultado atual do uso de células-tronco
adultas para a recuperação de órgãos
e outras aplicações?
R.:
No Brasil já são comprovados os bons resultados
obtidos com o uso de células-tronco adultas no
tecido cardíaco. Em várias regiões
do país, pesquisadores tentam ampliar o campo de
aplicação das células-tronco adultas.
Também no exterior, muitas são as pesquisas
e as publicações científicas que
apresentam resultados consideráveis.
13.
Qual é a situação dos bebês
anencéfalos? Têm morte cerebral?
R.:
A expressão anencefalia (ausência do encéfalo)
não parece muito adequada. O mais apropriado é
o termo meroanencefalia (ausência de uma parte do
encéfalo). Isto se justifica porque, sendo o encéfalo
um termo muito complexo, falar de sua ausência total
pode indicar uma imprecisão. A anencefalia, assim
chamada comumente, é um mal congênito, isto
é, ocorrido durante o desenvolvimento embrionário.
As causas podem ser variadas, como a ausência de
ácido fólico no organismo materno. Os anencéfalos
podem viver horas e até dias. Dependendo do grau
de anencefalia, estes bebês podem ter alguns movimentos,
além de respirar. De modo geral, possuem alguma
atividade tronco-encefálica e, justamente por este
motivo, não podemos dizer que houve aí morte
cerebral. No caso de morte cerebral, o cérebro
não dá mais comandos para o resto do corpo
e respiração é mantida mecanicamente.
14.
A gravidez de um anencéfalo põe em risco
a vida da mãe?
R.:
É preciso, antes de tudo, considerar que qualquer
gravidez envolve riscos. Desta regra não escapa
a gravidez de anencéfalos. Em outras palavras,
os riscos para uma gravidez de anencéfalo são
os mesmos para uma gravidez comum. É preciso levar
em conta também que a proporção de
anencéfalos nascidos é bem menor do que
a dos demais bebês. Vale dizer também que
não se observa no número de mulheres que
morrem durante a gravidez ou no parto o fato de estarem
todas grávidas de anencéfalo. 15. O sofrimento
de uma mãe neste estado justifica o abortamento
do bebê? A vida e o sofrimento dele não conta?
R.: Apesar de o sofrimento ser muito grande para uma mulher
grávida de um bebê anencéfalo, o abortamento
não se justifica. Trata-se, antes de tudo, de uma
vida humana. O anencéfalo não terá
a mesma qualidade de vida que um bebê normal, mas
isto não significa que não tenha a mesma
dignidade. Muitos confundem dignidade com viabilidade.
A dignidade não está vinculada a um órgão
específico. Pela ausência de uma parte do
encéfalo o bebê não será um
ser humano como os demais, mas será um ser humano
e, justamente por isso, terá de ser respeitado
até o fim. A deficiência de um ser humano
não o torna menos digno, mesmo quando esta deficiência
é uma meroanencefalia. Os que defendem o aborto
para diminuir o sofrimento do anencéfalo são
os mesmos que, curiosamente, definem a anencefalia como
morte cerebral. Bom, se há morte cerebral não
há sofrimento. Por outro lado, se há sofrimento
é porque está vivo. A vida de um anencéfalo
é curta e durante seu curso tudo será feito
para que não haja nenhum sofrimento, o que ocorre
com qualquer outro tipo de paciente. O sofrimento é
objeto do cuidado médico. A Medicina não
existe para matar pessoas que sofrem, mas para lhes dar
o alívio da dor e, dentro de suas reais possibilidades,
a cura.
16.
Quais as implicações psicológicas
para a mãe que interrompe a gravidez de um bebê
anencéfalo?
R.:
Ao levar a gravidez de um anencéfalo até
o fim, a mulher sofre muito. Mas é igualmente verdade
que o sofrimento não é menor quando se apela
para o aborto. Em todos os casos o sofrimento é
incalculável, pois não existe instrumento
que possa medir e comparar um sofrimento com outro. No
entanto, ao abortar um anencéfalo os conflitos
psicológicos podem se traduzir em traumas e sentimentos
de culpa que acompanharão a mulher por toda a sua
vida.
17.
Como amparar a mãe durante a gravidez de uma criança
anencéfala?
R.:
O afeto é essencial neste momento. Será
preciso deixar claro que a anencefalia não é
um castigo e nem culpa da mãe. Algumas mulheres
acreditam que tal fato ocorreu porque em determinada altura
da gravidez houve, de sua parte, um sentimento de rejeição.
Tais pensamentos devem ser eliminados. O casal deve estar
bem unido e numa constante troca de sentimentos e atenção.
O marido deve encorajar sua esposa a manter firme a esperança
e manifestar a ela seu amor nos momentos de maior angústia
e apreensão. O médico deve respeitar o momento
difícil e expor, com simplicidade e abertura, todo
os fatos que envolvem aquela circunstância. Os familiares
e os amigos, respeitando os sentimentos da mãe,
devem demonstrar maturidade nas posições,
sem a intenção de induzir posturas contra
a vida. Neste momento vale falar sobre o sentido da vida
e dizer que um bebê anencéfalo não
é uma coisa ou um monstro, mas um ser humano que
apresentou falhas no curso do seu desenvolvimento e isso
o levou a uma deficiência incorrigível.
18.
Há absoluta certeza na palavra médica que
diagnostica a anencefalia?
R.:
Atualmente é possível diagnosticar a anencefalia
sem muito erro, mas é bom esclarecer que há
graus de anencefalia. Como foi mencionado anteriormente,
o termo mais adequado é meroanencefalia, porque
indica que parte do encéfalo está ausente.
Pois o grau da anencefalia está relacionado com
a parte ausente.
Fonte:
Presbiteros.com.br